sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

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Fiquei a tarde toda ontem pensando em ti. Relembrei de como tu segura o cigarro com a mão esquerda enquanto bebe um latão de kaiser. Meu amor, tu foi a pior desgraça que me ocorreu esse ano, mas saiba que contigo eu cresci um bocado. Lembra quando a gente foi num aniversário aí chegando lá tu ficou bêbada e de repente desligou o som e gritou CARALHO, TIRA ESSA COISA DEPRIMENTE DE LOS HERMANOS E PÕE UM FORROZIN PRA NÓS DANÇAR; fiquei com o cu na mão de tanta vergonha, então segurei no teu braço e puxei e fomos embora dali de fininho. No caminho, tu falava, falava, falava até que eu gritei VAI TOMAR NO CU, CALA A BOCA, PORRA; tu começou a chorar, baby. Deve ter sido o efeito do álcool, pois tu sempre ficava sensível toda vez que bebia. Me senti tão mal com tudo aquilo, puxei teu braço novamente e te levei pra casa. Chegando em casa a gente bebeu toda a cerveja que tinha na geladeira, começamos a rir com o que tinha ocorrido HAHAHAHA, e tu dizia “amor, tua cara ficou vermelha hahahaha desculpa, amor” HAHAHA. Baby, eu sei que não sou uma pessoa fácil de lidar, que meu humor é uma bosta e que minha auto estima é mais baixa que cu de cobra; mas, baby, tu poderia ter tido paciência e ter pego leve. Te lembra daquela vez que passamos uma madrugada toda conversando sobre nossos sonhos e no dia seguinte tu me disse “como pode tu sonhar só com um fusquinha pro resto da vida? uma bicicleta é muito mais bonita”, e eu ri e disse “ahh, sim, claro”. Eu lembro de uma vez também que eu tava no meu quarto chorando enquanto bebia uma cerveja, aí tu disse QUE PORRA É ESSA? TÁ CHORANDO POR QUÊ?, E eu não quis responder, então tu se aproximou devagarzinho e sussurrou “tudo bem, amor, a vida é uma merda mesmo, simbora pelo menos sair desse muquifo.” E fomos pra rua. Caminhamos por um longo tempo em silêncio. Paramos numa praça. Tu acendeu um cigarro, me olhou nos olhos e disse “sabe o que é a vida, Carol?”, eu disse que não; aí tu continuou “a vida é um imenso lago de bosta bem profundo. Aí quando tu pensa que aprendeu a nadar, a correnteza vem e fode com tudo. Tem que ter muito estômago pra engolir muita merda, e isso tu ainda não tem.” E sim, a vida é isso. E sim, eu nunca aprendi a viver. Ainda não tenho estômago pra tanta bosta. Todo esse tempo que passei ao teu lado foi terrível. Quando percebi já tinha me apaixonado. Ninguém sabe, baby, mas tu foi a única que me fez ir pra faculdade até hoje. Tu foi a faculdade, e eu era a estudante. 

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