São dias como o de hoje que eu penso em ti. Dias
onde não há nada pra se fazer e onde tudo está no seu devido canto. Penso em ti
e tento calcular quantos dias já se passou desde dezembro até agora. Nunca fui
boa em números, você deve lembrar. Eu penso também nas histórias que eu
inventei e você me repreendia me chamando de filha da puta. São dias como o de
hoje que me recordo quando eu te ligava seis horas da manhã falando que o amor
existe e nos espera lá fora. Você, mal humorada, desligava o telefone e voltava
a dormir. São dias como o de hoje que paro pra me lembrar dos últimos meses,
dos amigos que deixei pra trás, do cheiro do hospital onde trabalhei, dos
pacientes. Paro e fico a refletir como é triste chegar em casa, no frio,
cansada, sozinha e não ter você pra falar do caso do paciente que veio a óbito
por conta do câncer avançado. Pego algumas gotas de remédio e tomo pra tentar
dormir. Tenho bebido cada vez menos. Tenho tido muita preguiça de ler. Talvez
seja bom que eu te escreva e mande todas essas coisas que fodem com a minha
existência. Talvez você leia e me dê uma resposta no celular. Porque são dias
como o de hoje, que eu sei que você também pensa em mim.
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