Um amigo me ligou ontem de noite e me disse que
encontrou o amor da sua vida. Que agora finalmente teria alguém pra transar no
feriado da padroeira da cidade. Segundo ele, esse é o pior feriado do ano. Ficamos
ali durante uns quinze minutos, até que ele resolveu desligar dizendo que as
dez iria levá-la prum motel. Desejei boa sorte e dei tchau. Liguei o som
baixinho e botei Belchior. Era quarta feira. Não há nada numa quarta feira.
Comprei algumas cervejas e comecei a tomá-las devagar. Acredito que quando um
poeta comete suicídio sua alma descobre uma extensão de céu onde são recebidos
pelos anjos com festa e músicas do Belchior. Abri mais uma e fiquei por ali.
Troquei as músicas. A cerveja não fazia efeito e tudo ficava um tédio. Lembrei
do meu amigo. Nesse momento ela já teria chupado seu pau ou ele já teria gozado
dentro em algum motel razoável de Imperatriz. Um sentimento mesquinho de inveja
nasceu. Comecei a rir da minha mediocridade. Abri a última garrafa. Me estiquei
no sofá e olhei prum teto alto e sujo. Lotado de teias de aranha. Pensei no amor.
Pensei na possibilidade de encontrá-la numa esquina qualquer ou enquanto meu
ônibus não chega. Imaginei um lindo poema assinado com uma bela trepada.
Adormeci. Quando acordei no meio da madrugada uma mensagem do meu amigo dizendo
“Carol, terminamos. Ela disse que tinha que ir embora da cidade. Pediu
desculpas e tal. Estou arrasado. Ainda tem cerveja aí?” E mais uma vez na noite
eu sorri daquilo tudo. Poucos sabem, mas talvez o único amor acreditável seja
um belo copo cheio de cerveja.
Nenhum comentário:
Postar um comentário