Se eu soubesse exteriorizar o que estou sentindo em relação ao último
final de semana e a vida, o faria. Em vários momentos na aldeia eu senti
vontade de chorar. Não sei dizer o motivo. Eu ouvia as histórias e me arrepiava
em silêncio. As crianças indígenas banhavam no brejo sem nenhum receio,
enquanto seus pais faziam da festa do mel a experiência mais linda que pude participar.
Eles cantavam e dançavam bravamente, mesmo sendo uma possível despedida, pois
havia um senhor de 103 anos, e talvez fosse sua última festa com a família. Eu
sentava pelos cantos e observava as suas pinturas na pele, seu linguajar que
pra mim era estranho e os cachorros que por ali andavam. Escutava as histórias
cheias de coragem e sobre como foi escapar de uma onça no meio da mata. Eu via
e ouvia tudo aquilo com um coração aberto e emocionado. Houve um momento que o
senhor de 103 anos disse diante de uma câmera "índio não é brabo. se índio
fosse brabo teria expulsado Pedro Álvares Cabral". Ouvir isso foi um soco
no estomago, porque é muito comum por aí pessoas falando que índio é mau e que
não são pessoas. Nesse momento, eu só queria abraçá-lo e dizer que vai ficar
tudo bem. E falar pra ele o quanto tudo ali está sendo importante pra mim,
porque foi conversando com alguns deles que eu pude ter a certeza que
finalmente estou trilhando um caminho possível. Talvez nem eu mesma soubesse
que o que estava acontecendo não era somente a festa do mel em si, pois eu pude
vivenciar no plano físico que atravesso por um momento de transição na minha
vida. Talvez tudo isso passe, o que é normal. Mas essa gratidão que sinto e
jorra do meu peito, essa não vai passar, porque tudo que chega, invade e
transborda de tanto amor, fica.
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