terça-feira, 21 de novembro de 2017

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Eu gostava de sentar no chão da sala quando não havia ninguém por perto. Nessa época, havia perdido quinze quilos em duas semanas. As imagens da minha mãe recém falecida a todo tempo passava pela minha memória, por isso eu evitava fechar os olhos. À noite, quando mais me sentia só, ligava a tevê e tentava nunca dormir. Certa vez, no natal, com um mês apenas do seu falecimento, vi uma luz entrando pela fresta da porta da sala e tomando forma. Era minha mãe. Em silêncio, ela veio em minha direção e me mostrou uma fissura no seu peito. Nessa fissura, lá no fundo, havia seu próprio reflexo entrando numa espécie de barco minúsculo. Tinha uma pessoa dentro do barco erguendo uma das mãos e, na margem do rio, outra pessoa cantando uma música de Andrea Bocelli, seu cantor favorito. Tentei encostar um dos meus dedos, mas foi impossível. Minhas mãos ficaram imóveis e não havia nada que eu pudesse fazer além de tentar olhar pra aquele reflexo que aos poucos foi esvaindo junto com ela. Ficamos ali por quinze minutos sem pronunciarmos uma única palavra. E tudo foi se desmanchando como uma névoa, sem deixar um único resquício. Desde então, com a proximidade do natal, eu sempre penso naquele dia e refaço a cena. Inutilmente espero paciente por algum sinal dela, mesmo sabendo que aquele reflexo teria sido seu último adeus. A sua forma sensível de me dizer que agora está tudo bem e que talvez nunca volte. O natal é saber que um dia a morte vai te receber com um abraço gentil, enquanto tua música preferida é tocada com empenho por alguém jamais visto.

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