Eu gostava de sentar no chão da
sala quando não havia ninguém por perto. Nessa época, havia perdido quinze
quilos em duas semanas. As imagens da minha mãe recém falecida a todo tempo
passava pela minha memória, por isso eu evitava fechar os olhos. À noite,
quando mais me sentia só, ligava a tevê e tentava nunca dormir. Certa vez, no
natal, com um mês apenas do seu falecimento, vi uma luz entrando pela fresta da
porta da sala e tomando forma. Era minha mãe. Em silêncio, ela veio em minha
direção e me mostrou uma fissura no seu peito. Nessa fissura, lá no fundo,
havia seu próprio reflexo entrando numa espécie de barco minúsculo. Tinha uma
pessoa dentro do barco erguendo uma das mãos e, na margem do rio, outra pessoa
cantando uma música de Andrea Bocelli, seu cantor favorito. Tentei encostar um
dos meus dedos, mas foi impossível. Minhas mãos ficaram imóveis e não havia
nada que eu pudesse fazer além de tentar olhar pra aquele reflexo que aos
poucos foi esvaindo junto com ela. Ficamos ali por quinze minutos sem
pronunciarmos uma única palavra. E tudo foi se desmanchando como uma névoa, sem
deixar um único resquício. Desde então, com a proximidade do natal, eu sempre
penso naquele dia e refaço a cena. Inutilmente espero paciente por algum sinal
dela, mesmo sabendo que aquele reflexo teria sido seu último adeus. A sua forma
sensível de me dizer que agora está tudo bem e que talvez nunca volte. O natal
é saber que um dia a morte vai te receber com um abraço gentil, enquanto tua
música preferida é tocada com empenho por alguém jamais visto.
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