Assim que eu cheguei no Rio houve um momento que eu vi saindo dos meus olhos uma espécie de brilho que eu jamais tive. Olhei pros lados assustada e os carros passavam em alta velocidade. As pessoas esbarravam em mim e o ritmo da cidade ia ficando cada vez mais feroz com a noite vindo. Sentei em algum daqueles degraus do museu e tudo refletia meus olhos imensos e, agora, brilhantes. Alguém se aproximou e perguntou meu nome, eu respondi. Era um senhor completamente louco que morava nas ruas. De alguma forma me senti tranquila perto dele. Conversamos durante algum tempo. Ele sempre falando aleatoriamente coisas sem fundamento algum, eu fingia que entendia. Então tomei coragem e perguntei "você vê algo diferente em meus olhos?” ele deu uma gargalhada estridente, balbuciou algo que não consegui entender e saiu cambaleando entre os degraus. Levantei e me aproximei o mais perto possível de um reflexo qualquer. O brilho havia sumido. Toquei nos meus olhos, nada acontecia. Já era noite e tinha começado a chover. Procurei por Amanda e fomos embora. No caminho, percebi que tinha sido a primeira vez que meus olhos reluziam desde aquele último natal de dois mil e dois, quando, aos nove anos, voltava de mais uma cirurgia em São Paulo e da janela do ônibus me deparava com a imensidão de uma estrada infinita que enchia meus pulmões.
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