quarta-feira, 9 de maio de 2018

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Todo domingo vó fazia suco de acerola. Morávamos numa casa pequena e sem espaço, por conta dos móveis. Vó sempre foi muito detalhista. Havia um espaço na sala que era destinado aos retratos dos homens que ela já transou. No meio deles tinha uma imagem de Nossa Senhora segurando um coração na mão esquerda e uma criança no colo. Às vezes eu desligava a tevê e ia pra sala olhar pros rostos de cada um. Ficava tentando descobrir qual deles foi meu vô. Procurava semelhanças físicas entre eu e eles, mas jamais pude saber. Vó nunca falava deles. Só uma vez que ela ficou bêbada e sentou do meu lado pra dizer "amei cada um desses homens de uma forma diferente. eu sei discernir o cheiro do pau deles com os olhos fechados." Eu tinha doze anos quando escutei isso. Não respondi. Vó passou a maior parte dos setenta anos vivendo em silêncio. Sem muito alarde. Uma vez a vi trepando com um garoto de vinte e um anos no nosso quintal. A lua estava cheia. Nossa casa era de taipa. Acordei no meio da noite e vi pelas brechas das paredes que vó estava nua em cima de um jirau que usávamos pra lavar roupa. O garoto chupava seus seios murchos e caídos enquanto ela pedia pra ele ser mais rápido. Voltei a dormir. Sua voz era grossa. Todas as tardes ela sentava na porta pra enrolar seu fumo e esquecia o isqueiro. Então me gritava pedindo que fosse buscar. O som grave entoava por toda a casa. Na madrugada do meu aniversário de dezessete anos, em 2010, vi vó entrando numa cabine de uma D 20 vermelha. O homem aparentava ter setenta anos. Os dois sorriam um pro outro. Seu rosto estava tão sereno que parecia ter rejuvenescido trinta anos. Ela sempre me falava histórias de putas idosas que escapavam dos bordéis e do desânimo da velhice sumindo na neblina das estradas. Fazia frio e a luz da cozinha estava acesa. Fiquei olhando esperando ela sair da cabine, mas o carro deu partida e vó desapareceu no nevoeiro deixando no céu o cheiro do seu fumo.

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