segunda-feira, 23 de julho de 2018

163

Com oito anos cravei pela primeira vez os meus olhos num defunto. O salão da igreja estava cheio de familiares. Me aborreci com todo aquele chororô e levantei indo em direção ao meu tio que estava estirado num caixão. Seu rosto estava mais escuro e tinha uma rigidez tranquila. Sua mão era pequena, parecia bastante com a do meu pai. Recordo que não senti nada. Não entendia o choro e o desespero de algumas pessoas. Nada daquilo me tocava. Foi também a primeira vez que me questionei se havia algo de errado comigo. Nada daquilo me comovia. Permaneci olhando meu tio por um longo período. Logo depois a esposa dele veio me abraçar. A sua respiração estava ofegante e pesada. Carregava um remorso estranho nos olhos. Não movi meus braços nem disse nada. Esperei paciente ela se recompor. Depois desse dia sempre que vou ao velório é de costume me dirigir até o presunto. Existe algo no semblante enrijecido do morto que me reconforta. É como se estivéssemos unidos por esse silêncio que me mantém imersa.

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