Sonhei que uma criança síria observava um corvo em frente a minha casa. Era feriado da padroeira da cidade. Os bares estavam fechados. Os feirantes não tinham ido trabalhar. Os bêbados dividiam os últimos goles de corote. Do outro lado da cidade acontecia a procissão. Dava pra ouvir os fogos e os cantos de louvor. Acendi um cigarro e fiquei por ali. Era início de outubro e tudo ardia. A sensação térmica altíssima dava a impressão que a cidade inteira fedia a suor escorrido do cu. Não chovia há quatro meses. Puxei o primeiro trago e esperei a criança chorar clamando pelos braços da mãe. Nada acontecia. O corvo também continuava quieto enquanto os outros pássaros iam e vinham. Os dois sabiam o que um significava pro outro. Eles sabiam que o que desistisse primeiro viraria mantimento. Estavam unidos unicamente pela fome. Não havia expressão no rosto de nenhum dos dois ainda que o azul insuportável do céu continuasse. Meu cigarro já estava perto do fim. Os bêbados tentavam dormir em paz segurando as garrafas secas de corote. Abri a porta de casa e olhei novamente pra criança e pro corvo. Entrei. Lá fora, uma brisa calma surgia à medida que a porta se fechava.
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