Há algum tempo que não te escrevo, pois ultimamente venho pensando na minha
incapacidade de esclarecer as coisas através de palavras. Meus últimos dias têm sido bons, tudo vem funcionando; digo, tudo em
relação ao que está a desrespeito a mim. O ônibus incrivelmente cumpriu os
horários nos últimos dois dias, as moedas estão sobrando pra passagem, a água
também não faltou, a chuva veio. Sim, me parece tudo bem. Não fraturei nenhum
neurônio. Ontem de noite tive um pesadelo, mas fora isso a noite foi tranquila. Os carros deram sossego, ninguém gritou no
meio da rua e os cachorros também resolveram dormir. Existe um controle entre
minha alma e meu corpo, talvez por isso eu esteja tão tranquila aparentemente.
Bem, mas existe algo que me pertuba .Tenho refletido na minha família, no meu
pai, na minha mãe. Nada tem me faltado. A roupa lavada, a comida, o bom dia,
estão ali. Mas tu te lembra quando comentei contigo daquele sentimento que vem do fundo, uma tristeza sem quê nem
por quê? Ela voltou! Na verdade, acho que nunca me deixou, ela apenas dar trégua entre uma semana e outra. Não, não te preocupa, estou sabendo lidar com todas essas coisas, isso
não me tirou a tranquilidade que estou tendo a partir de uma meditação que
venho praticando. Às vezes quando me pego nessa melancolia, começo a ver o céu,
leio um livro. Daí, sem que eu perceba, o ânimo me vem novamente. E, como uma
criança que brinca com os pés no meio fio se equilibrando pra não cair, eu vou
vivendo como se estivesse numa corda bamba a ponto de se desequilibrar e acabar
tudo de uma vez.
Ontem, enquanto eu arrumava algumas coisas, reli a tua carta. Lembra? Pensei em
colocar num quadro para que eu pudesse ler todos os dias, mas achei melhor não. Optei pelo
espanto que é se deparar de repente com palavras tão bonitas. Sinto a tua falta.
Com amor,
Carolina.
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