sexta-feira, 21 de agosto de 2015

39

(...) e foi isso que ocorreu. Lhe contar outra coisa, mãe. Hoje meu dia foi triste. Fui ao velório de um colega. Ele foi velado no mesmo lugar que você. Assim que entrei notei algumas diferenças. O lugar parecia estar mais "confortável" pois diminuíram o ambiente e colocaram uma central de ar. Mas as mudanças não tiraram de mim a horrenda lembrança que foi lhe ver ali, deitada, imóvel, fria. Arrastei meus pés e tomei coragem pra ver meu colega. Ele havia ficado mais escuro. Tinha alguns pontos perto da sobrancelha. O rosto estava como o de qualquer morto, mas mais triste. A sensação foi de que tivessem arrancado o espírito dele com força. A morte não veio pra ele como alívio, mãe. Foi uma espécie de castigo imposto pelo destino. Ao contrário de você que, visivelmente, aparentava estar mais feliz depois de morta. Fiquei poucas horas ali, tive que voltar pro ponto de ônibus, pra depois levantar cedo, enfrentar um engarrafamento, enriquecer o patrão e ainda agradecer à vida pela oportunidade. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário