Agora vou te comentar sobre o
mundo lotado de tristeza que tem fora desse quarto. Senta aí. Isso.
Vou te falar direitinho sobre as coisas bizarras. A parada é a seguinte; nada,
absolutamente, nada é interessante ou bonito quando se toma a realidade do mundo. Qualquer dia desses, tu vai sair à noite pra ir numa farmácia
comprar um ansiolítico. Há tempos tu não sai de casa, mas nesse dia vai ser
preciso, pois é instrução do teu psicólogo; sair, fumar teu cigarrinho,
ponderar algumas coisas etc. Mas, antes que tu chegue na esquina, tu vai se
deparar com um animalzinho abandonado e passando frio e fome. Aquilo vai te
machucar, te deixar triste. Porém, tu segue teu caminho até a farmácia. Daí
passando duas quadras tu vê uma mulher catando lixo, beleza, vai ver ela
trabalha com reciclagem; só que, do outro lado da rua há dois moleques deitados
na calçada sem calçado, sem roupa limpa e, com certeza, sentindo frio. Tu sente
medo deles, aliás, eles podem te assaltar, afinal, tu vive num país onde a mídia te diz que a soma de negro + menor = marginais que só querem te roubar, né? Mas será mesmo? Moleques magricelos
que provavelmente não comeram nada o dia todo e tu apenas sente medo deles; e
esse sentimento te faz sentir raiva de si mesma, porque deve ser horrível ser
excluído da sociedade, ser abandonado pelo pai, não conseguir se enquadrar em nenhuma situação imposta pelo mundo. E tu reflete; vai ver são só duas crianças em que os
pais perderam as rédeas das linhas tortas da escrita e ficaram perdidas por aí
mendigando nem que seja um prato de comida pra forrar o estômago. Todos esses pensamentos e cenas vão ocorrer
antes que tu chegue na esquina, depois que tu passar dela, tu poderá ver coisas
piores. Talvez tu vá sentir medo de ser estuprada, de ser vítima de algum motorista bêbado, de levar
um tiro ou se deparar com um covarde batendo numa mulher e falando; tu me
respeita, sua vadia, quem tu pensa que é? Sim, isso tudo ta aí ao léu pra quem
quiser ver e depois fingir que não viu. Ah, tem mais, tu, certamente, não
será vista por grande parte das pessoas, pois todos aqui fora têm uma coisa
chamada smartphone, daí, neném, é todo mundo sozinho, cada um por si; ninguém
vai te olhar no olho e perguntar sobre teu dia, ninguém tá se lixando pro teu
problema. O mundo há tempos vem funcionando assim. E, então, tu chega
finalmente na rua seis, a farmácia tá mais perto, daqui umas quatro quadras tu finalmente chega na farmácia. A cabeça pesa, o peito aperta e se pergunta; como pode, deus, o mundo
estar tão sem controle? E pensa e repensa, chega à conclusão que a humanidade
falhou, nada mais funciona, nada vai mudar. Pessoas vão nascer e vão continuar
sendo medíocres e más como os pais, como foram os avôs. Daí tu percebe que vive
no meio disso tudo e que tu é assim também; um ser humano ferrado que foi à
escola, conseguiu se formar, perdeu o emprego, mora só e não faz nada pra que o
teu bairro mude. E então a moça da farmácia pergunta se tu trouxe a receita do remédio e tu,
atordoada, diz que sim. Daí tu compra o ansiolítico, vai pro caixa pagar,
recebe algumas moedas de troco. Decide tomar o mesmo caminho. E tu vê que tudo
permanece do mesmo jeito; a senhora continua a escolher qual material levar, os
meninos num sono (aparentemente) profundo e o cachorrinho ainda deitado. O
fluxo de pessoas já vem diminuindo, alguns à espera do ônibus, outros falando no
celular. Finalmente em casa, tu vai pegar a chave, abrir a porta, subir as
escadas, tomar o remédio, ligar a tevê e ver uma criancinha que, levada pelas
ondas do mar, foi parar numa praia. Não irá entender bem a notícia, mas vão
falar algo sobre guerra, refugiados, síria. Desliga a tevê. Caminha até na janela e decide acabar logo com tudo, mas tu só consegue chorar, sentir a dor
do mundo. Começa a reparar no céu, nas estrelas e, enquanto chora e olha pra
imensidão escura, tu percebe que é hora da humanidade colocar a mão na consciência, pois não haverá nada de interessante ou bonito que possa funcionar como um sedativo pra te adormecer e não ver toda essa insanidade que o mundo se tornou.
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