segunda-feira, 28 de setembro de 2015

45

Você pediu pra eu sair de casa. Eu olhei nos seus olhos, reparei no relógio da parede, olhei pra você de novo. Você ficou como todas as vezes fica; me encarando fixamente e esperando que eu conteste; ah, eu não vou sair. Mas fiz diferente. Tranquilamente coloquei copo sobre a mesa e levantei. Não procurei por roupas ou comida. Você estava certa, eu tinha que seguir em frente. Abri a porta e senti o vento frio em meu corpo. Andei, dobrei ruas, tentei ligar pra alguém. Meus pulmões estavam pequenos, não consegui respirar. Eu estava como sempre desejei quando mais nova; sem casa, sem obrigações ou contas pra pagar, sem destino. Deveria estar feliz. Deito minha cabeça num banco, ela explode. Ar pra dentro, ar pra fora, fecho os olhos, consigo segurar a crise. Me dou conta que continuo sendo a única que é capaz de me entender. Deixo o humano que ainda existe entrar. Penso em você, e, assim como eu, lhe vejo vazia, com frio e sentindo o coração sendo devorado pelos próprios demônios.  E no final, nada disso importa; nem brigas, nem o lar, nem a comida. Somos apenas dois animais enjaulados com a certeza de que algo bom ainda pode existir, afinal, os quatros sentidos nos dizem isso. 

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