Você pediu
pra eu sair de casa. Eu olhei nos seus olhos, reparei no relógio da parede,
olhei pra você de novo. Você ficou como todas as vezes fica; me encarando
fixamente e esperando que eu conteste; ah, eu não vou sair. Mas fiz diferente. Tranquilamente
coloquei copo sobre a mesa e levantei. Não procurei por roupas ou comida. Você estava
certa, eu tinha que seguir em frente. Abri a porta e senti o vento frio em meu
corpo. Andei, dobrei ruas, tentei ligar pra alguém. Meus pulmões estavam
pequenos, não consegui respirar. Eu estava como sempre desejei quando mais
nova; sem casa, sem obrigações ou contas pra pagar, sem destino. Deveria estar
feliz. Deito minha cabeça num banco, ela explode. Ar pra dentro, ar pra fora,
fecho os olhos, consigo segurar a crise. Me dou conta que continuo sendo a
única que é capaz de me entender. Deixo o humano que ainda existe entrar. Penso
em você, e, assim como eu, lhe vejo vazia, com frio e sentindo o coração sendo
devorado pelos próprios demônios. E no
final, nada disso importa; nem brigas, nem o lar, nem a comida. Somos apenas
dois animais enjaulados com a certeza de que algo bom ainda pode existir, afinal, os quatros
sentidos nos dizem isso.
Nenhum comentário:
Postar um comentário