sexta-feira, 2 de outubro de 2015

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To dentro de um corpo de vinte e dois anos, sem rugas, ágil e aparentemente sadio. Mas minha alma me parece doente. Minha mente funciona de um jeito às vezes tranquilo, como se eu finalmente tivesse conseguido organizar todas as ideias, como se meus neurônios estivessem funcionando do jeito que é pra ser. Daí eu levanto, faço um esforço, vou escovar os dentes, faço outro esforço, tomo café, saio, entro no ônibus e sento. Tudo me parece sossegado; não teve acidente, ninguém perdeu a hora, o motorista estava de bom humor e o cobrador tinha troco pra todos. Mas aí eu to ciente que em qualquer momento meu corpo forte e ágil pode desmoronar. A tristeza toma conta do meu ser, minha mente começa a produzir coisas horrendas. Ela pesa e flutua como se fosse um saco de ferramentas pairando no ar. Todo o sangue do corpo parece percorrer rapidamente só na cabeça. Sinto-a quente, às vezes me parece que vai explodir. Isso me assusta, pois parece que alguma veia vai estourar e eu vou ter um ataque. Então eu olho pras pessoas. Tento de alguma forma me sentir segura e confortável perto delas, mas sinto receio de que elas percebam e tenham algum tipo de reação que possa me deixar pior. AH, ELA TÁ ENLOUQUECENDO, VEJAM SÓ. Paro. Ar pra dentro, ar pra fora. Imagino que é só uma mente cansada pedindo socorro, só que minha alma grita dizendo que não é só isso. Ela me diz que to doente, que é preciso de remédios, tratamento. Mas a possibilidade de eu ter que tomar remédios pro resto da vida me apavora. Eu não quero isso pra mim. Nada pode controlar minha mente, nenhum remédio, nem ninguém. Eu quero poder ter o controle das minhas atitudes, só que tá difícil. De um lado da minha cabeça é dito; ah, se mata logo, só fica aí dando trabalho pra tua mãe com esse mau humor insuportável que tu não consegue segurar. E o outro diz; não, as coisas não são assim, não devem ser assim, tu tá doente, milhões de pessoas sofrem disso, vai com calma, lembra; ar pra dentro, ar pra fora e põe uma música, tu vai sair dessa.

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