sábado, 10 de outubro de 2015

47

consigo sentir meus ossos mais sensíveis, às vezes
minhas pernas não obedecem ao comando
às vezes calculo mal os degraus que ainda faltam e
o pior, minha memória não funciona como antes
mas ainda assim eu me acostumei a te esperar
no lado esquerdo da cama pra perguntar o que você
fez hoje, sobre as lembranças, se você alimentou os
pombos lá fora ou qual foi a sua última refeição
eu te espero na varanda, sentada, na esperança de você
enrolar o meu cigarro na simetria perfeita, sim, eu nunca aprendi,
sou incapaz, minha mão fica trêmula, me sinto nervosa
hoje eu fiz um esforço e levantei da cama
preparei um café forte e amargo, como você gosta
sentei num banquinho e fiquei ansiosa na espera de um
único sinal da campainha e ser você
então peguei um livro pra ler, mas me lembrei que
há meses perdi meu óculos
há meses não chove
há meses meu campo de visão é cinzento
não sei se é fumaça ou se é a tua falta
te espero, pois não tem pra quem perguntar sobre
o sabonete do banheiro que sumiu ou o porquê
da tampa do vaso estar aberta
te espero porque a saudade que sinto é como se arrancasse
lentamente os dentes que ainda me faltam
te espero
como um suicida espera um mundo melhor após a morte.

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