terça-feira, 3 de novembro de 2015

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Ontem, dia de finados, eu vi nascer uma parte em mim que até então ainda não tinha reparado. Eu acordei, tomei café e desci pro trampo. Trabalho num posto de gasolina. Chegando lá fui fazer o balanço geral da venda do dia anterior e, pra minha surpresa, tava sobrando vinte reais. Conferi novamente o dinheiro, os itens que foram vendidos. Tava tudo "correto" nas minhas contas. Resolvi ficar com o dinheiro que não era meu. Não quis procurar o dono ou saber o que tava ocorrendo. Pois bem, guardei na mochila. Uns vinte minutos depois o frentista que tinha ficado no plantão do dia anterior, chegou. E então me perguntou se tinha sobrado dinheiro no balanço dele, pois ele tinha errado as contas e tentava ligar no meu celular pra me avisar, mas só dava caixa postal. Eu disse que NÃO. Disse isso várias e várias vezes. Ele ficou chateado, achando que ele quem tivesse errado na história; olhou pra trás e disse: - tá, tudo bem, me desculpa, acho que foi erro meu. Mas, na real, eu quis devolver, só que senti vergonha de tirar o dinheiro que já tava minha mochila. Fui pra casa, me senti o pior ser humano existente, porra, isso é feio, isso é roubo. Não tava sendo diferente de nenhum bandido estúpido capaz de tirar o último de pessoas inocentes. Não quero ser feita dessa massa que é um lado mentira e outro indiferença. Não dá. Amanheceu o dia. Fui novamente pro trampo. Devolvi os vinte reais, falei a verdade, disse que ia sim ficar com o dinheiro, pedi desculpas. Algo inexplicável que tava no meu peito, aliviou. Deve ser remorso. 

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