Ontem, dia de finados, eu vi nascer
uma parte em mim que até então ainda não tinha reparado. Eu acordei, tomei café e desci pro trampo. Trabalho num posto de
gasolina. Chegando lá fui fazer o balanço geral da venda do dia anterior e, pra
minha surpresa, tava sobrando vinte reais. Conferi novamente o dinheiro, os
itens que foram vendidos. Tava tudo "correto" nas minhas contas. Resolvi ficar com o dinheiro que
não era meu. Não quis procurar o dono ou saber o que tava ocorrendo. Pois bem,
guardei na mochila. Uns vinte minutos depois o frentista que tinha ficado no
plantão do dia anterior, chegou. E então me perguntou se tinha sobrado dinheiro
no balanço dele, pois ele tinha errado as contas e tentava ligar no meu
celular pra me avisar, mas só dava caixa postal. Eu disse que NÃO. Disse isso várias e várias
vezes. Ele ficou chateado, achando que ele quem tivesse errado na história; olhou pra trás e disse: - tá, tudo bem, me desculpa, acho que foi erro meu. Mas, na
real, eu quis devolver, só que senti vergonha de tirar o dinheiro que já tava
minha mochila. Fui pra casa, me senti o pior ser humano existente, porra, isso
é feio, isso é roubo. Não tava sendo diferente de nenhum bandido estúpido capaz
de tirar o último de pessoas inocentes. Não quero ser feita dessa massa que é
um lado mentira e outro indiferença. Não dá. Amanheceu o dia. Fui novamente pro
trampo. Devolvi os vinte reais, falei a verdade, disse que ia sim ficar com o
dinheiro, pedi desculpas. Algo inexplicável que tava no meu peito, aliviou. Deve ser remorso.
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