segunda-feira, 24 de outubro de 2016

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hoje tá um belo dia pra um belo suicídio

Acordei minimamente feliz. Agradeci as circunstâncias por mais um dia de vida. Amanheceu nublado, abafado. Liguei o chuveiro, mijei e tomei banho. Desci pro trampo. Lá escutei alguém falar no telefone que o caminhão de gasolina teria que tomar outro rumo senão a fiscalização ia pegar. Fingi que não escutei nada. Concentrei no meu trabalho. Logo em seguida o mesmo homem que tava no telefone liga a TV e escuta o noticiário falando sobre a lava jato, Eduardo Cunha, Sarney. Daí ele dá um tapinha nas minhas costas e diz " nada funciona nessa merda de país né?", não respondi. Continuei concentrada no meu trampo. Ele desliga a TV e vai atender outro telefonema. Cumpro minhas obrigações. Volto pra casa. Vou pra cozinha. Penso em fritar um ovo e comer com farinha. Mas é melhor não. Olho lá pra fora e vejo que chove. Então fecho a janela e a porta. Ligo o gás e me deito ali mesmo no não. Existe uma vontade de enterrar o que já tá morto há tempos. A goteira escorre pela parede. Penso na minha mãe que vai ficar. Lembro da minha mãe que já se foi. Uma lágrima escorre. A voz do homem ecoa pelo meu consciente mais uma vez " nada funciona nessa merda de país né?", e isso me faz ter a certeza do que eu estou fazendo é o certo. Dou meus últimos suspiros e espero paciente ser sufocada pelo gás.

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