sexta-feira, 21 de outubro de 2016

64

lembra quando uma vidente nos parou na rua e nos disse que eu seria mais uma dessas pessoas que tiveram a oportunidade de ter tudo mas que eu morreria alcoólatra e sem perspectiva de futuro?
lembra que eu ri daquilo e sussurrei baixinho no teu ouvindo falando "calma, baby, nem de cerveja eu gosto" e então uma lágrima escorreu no teu rosto porque de alguma forma você acreditou naquilo tudo.
você andava depressiva, é verdade
você estava sensível a qualquer coisa que te falassem
e eu ri mais uma vez da tua inocência e de como você era idiota
"para de frescura, caralho, vou me formar em medicina e enfiar o diploma no cu do meu pai"
então você acreditava veemente naquelas palavras e sorria
cinco anos se passaram, baby
agora tô com quase vinte e quatro
e o destino foi terrivelmente cruel contigo porque agora você dorme pra sempre
e só nos últimos três anos mudei de casa três vezes
e a única coisa de relevante de consegui nesses cinco anos foram os livros comprados em sebos com os trocos que sobram da cerveja.
tenho cada vez mais me afundado em livros e ansiolíticos
às vezes deixo de tomar os remédios e troco por dois ou três litrão de álcool
às vezes quando tô bêbada eu lembro de você
lembro da profecia daquela vidente naquela tarde terrivelmente quente de outubro.
baby, na noite passada eu chorei baixinho no meu quarto lembrando dos teus sonhos
então olhei pro teto escuro e orei
pedi a deus que ele olhasse com carinho pro teu espírito
e pros loucos desse mundo
porque só os loucos de pedra sabem de tudo.

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