quarta-feira, 5 de outubro de 2016

63

Meu trampo é meio longe de onde eu moro, mas hoje resolvi ir a pé. O sol tava muito quente. Dispensei o fone de ouvido (algo que eu sempre uso quando saio na rua) só que o lance d'eu não ter 2,70 pra pagar o busão me deixou com uma puta raiva. Daí beleza. O caminho que eu pego tem uma pracinha. E hoje, especialmente hoje, tinha um cara barbudo com uma plaquinha enterrada na grama que dizia assim "não trago a pessoa amada em três dias, mas ouço a sua história", não pensei duas vezes e fui contar uma historinha que me atormenta há três (quase quatro) anos. Não sei o que foi que me deu pois sou muito tímida. Sentei no banquinho. Ele era um cara bonito, aparentemente 25 anos e poeta. Aí eu comecei:
- moço, é o seguinte; tenho que ser breve porque tenho que tá no trampo às 14:00 hrs. Bom, há três anos (quase quatro) me apaixonei por uma mina de outro estado. De lá pra cá já se passou muita coisa. Ela conheceu pessoas, eu também. Ela namora há uns dois anos, eu namorei seis meses. Sei que é ridículo eu assumir isso, mas ainda gosto dela. Tenho muita vergonha de assumir isso pra mim mesma. Quero teu conselho porque tu é uma pessoa neutra nesse assunto. O que eu faço? Apago ela de tudo ou falo de novo que gosto dela? Caralho, to me sentindo meio merda. 
Ele ficou parado por uns dois minutos, me olhou com uma profunda pena e disse:
- Caralho, que merda hein! Que complexo! Porra, eu penso assim... é o pensamento meu... se existe algo preso dentro de você, não é legal que guarde só pra você... é bom compartilhar, porque é algo tão bonito, genuíno, entende? Vejo que sua vida é uma bosta, então não tem o porquê de guardar isso pra si.
Primeiramente mandei ele tomar no cu, só então agradeci a resposta e fui logo saindo. Pensei, repensei, pensei de novo e falei pra mim mesma "é, dessa vez eu consegui superar a ficção."


Nenhum comentário:

Postar um comentário