terça-feira, 23 de maio de 2017

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Eu pude ver deus cogitando a possibilidade de suicídio. Ele urrava como uma criancinha querendo o colo da mãe. Ele sabia que estava sozinho, que lúcifer havia vencido a guerra e as almas, boas e ruins, agora não reinariam o reino do céu. Havia choro entre os anjos. Deus tinha a consciência que ele e toda a sua criação estavam condenados a amargura. Deus sabia que a humanidade havia sido seu maior erro. Que ele fracassou. Que as pessoas haviam se perdido. Que todas as árvores haviam sido destroçadas por conta da ganância. Que o amor estava morto e nem seu filho seria capaz de renascê-lo, e que a fome havia tomado conta dos países pobres enquanto a corte blindava suas taças caríssimas cheias dos melhores vinhos e champanhes e no fim ainda diziam coisas como Deus é bom. Serafins mijavam enquanto políticos tiravam o pão da boca das pessoas e compravam mais uma lamborghini. O mundo havia se tornado um vômito do universo. Deus havia enlouquecido. Os anjos haviam deixado de adorá-lo. Então, sem forças, Ele próprio tirou suas vertes e parou pra contemplar tudo aquilo que havia criado. Só havia sofrimento e ganância. Ajoelhou-se pela primeira vez e chorou pela última. Chamou-se de o mais covarde entre os seres. Pediu perdão a todos os doentes, aos que sofrem de depressão, aos loucos, aos suicidas, aos bêbados, aos homossexuais, a todas as mulheres que foram estupradas e mortas, aos negros que morreram por conta de seres negros. Deus sabia que todos esses e mais outros haviam depositado a confiança, a dor, a justiça, a fé nEle somente. Foi então que no seu íntimo sussurrou pra si próprio que seu propósito não seria cumprido e, logo em seguida, Ele, com toda a sua força, autodestruiu-se. 

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