terça-feira, 30 de maio de 2017

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Assim que eu completei dezoito anos minha mãe que me criou partiu. Foi num sábado chuvoso, lembro bem. Eu havia passado a noite toda com ela no hospital. Não havia nenhuma preocupação da minha parte, porque eu sempre achei que ela fosse ficar boa logo. Fui ignorante, imatura, mas, acima de qualquer coisa, havia inocência. Ainda não tinha tido uma experiência com relação a morte. Nunca tinha perdido amigos ou alguém tão próximo. Por coincidência, nesse mesmo sábado da morte dela era o seu aniversário. Havia uma esperança, afinal, datas comemorativas são maquiadas pra serem vividas como momentos bons. Eu estava lendo Bernardo Guimarães. Passei toda a manhã lendo ao lado dela. À tarde, minha irmã veio e ficou com ela enquanto eu ia em casa lavar umas roupas. Nesse momento, lembro de outra coisa marcante. Eu estava estendendo as roupas quando de repente meus olhos se encheram de lágrimas por um pensamento repentino de que fosse perder minha mãe. Passou despercebido. Logo enxuguei as lágrimas e terminei meu serviço. Voltei pro hospital. Já era noite. Ficamos eu e ela novamente. Minha irmã antes de sair chorou. Reclamei. Minha mãe me olhou de canto e piscou um olho. Até hoje não sei o que ela queria dizer. Então minha irmã foi e chegou uma sobrinha, chama-se Teresa. Daqui pra frente começou o pesadelo que às vezes me atormenta até hoje. Mainha começou a ter um início de infarto que nós pensávamos ser uma crise boba de asma. No meio disso tudo ela me olhou com uns olhos cheios de lágrimas e medo, e disse ‘minha filha, se deus me tirar essa dor, nunca mais vou beber’. Então, nesse momento, eu tive que deixá-la com Teresa pra ir em casa pegar roupas porque ela havia defecado de tanta dor. Fui. No caminho, orei pela primeira vez. No caminho, pensei na possibilidade de voltar e ela não estar vida. Foi o que aconteceu. Chegando ao hospital ela já estava morta. Não havia mais possibilidade de eu pedir perdão ou dar um abraço. Fui pra um banheiro e chorei. Orei pela segunda vez. Pedi que se existisse um deus que ele ressuscitasse minha mãe assim como Jesus fez com Lázaro. Pedido não atendido. Começava então minha caminhada até agora. Quase vinte e quatro anos e nada mudou. Exceto talvez a ambição, o cansaço e as dores nas costas. E, assim como para minha mãe, o álcool também virou um amigo fiel para mim.

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