quarta-feira, 5 de julho de 2017

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Eu continuo na mesma. Comprei mais livros, engordei cinco quilos, bebi bastante. Todo esse tempo que você esteve distante, aprendi a amar outras pessoas. Me apaixonei três vezes desde quando você se foi. Três paixões que viraram poesia nas noites que eu ficava só e bebia só e acendia alguns poucos cigarros pra lembrar cada uma. Mas eu quero te contar só da primeira, pois foi a mais intensa e a única que nunca acordou com um poema feito por mim. Casamos com um mês de relacionamento. Eram brigas e brigas, trepadas e trepadas e, por fim, a reconciliação. Foram raras as vezes que ela se tornou poesia, é verdade. Mas havia algo fodido que me prendia nela. Desde quando você decidiu sumir, era ela que me abraçava na escuridão do nosso quarto e conversava coisas aleatórias sobre o dia, sobre as contas que iam vencer, sobre a ração dos gatos, em relação ao talão de luz atrasado e acerca das louças que ficava no combinado de eu lavar toda noite, mas eu nunca cumpria. Às vezes, quando eu chegava cansada, ela vinha em silêncio, deitava perto de mim e ficava ali calada, com o corpo colado no meu. Era como se ela soubesse que aquilo era tudo que eu precisava durante todo o dia. Não havia trepada no mundo, por melhor que fosse, capaz de pagar esse momento. Nunca soube responder por que nunca fiz questão de ler algo meu pra ela, já que a visão dela cozinhando pelada na cozinha era uma das partes do dia que mais me deixava feliz e com tesão. Durante esse tempo, escrevi muito sobre lembranças, decepção e crises da minha depressão que às vezes vem com força e com teu rosto. Não houve um dia sequer em que eu pegasse o celular e não pensasse 'será se eu deveria dizer que sinto saudade?'. Porém, não era justo com a mulher que eu estava. Com a mulher que por mais que eu me esforçasse, raramente ia parar num texto feito por mim, porque, como eu disse desde o início, continuo na mesma e você, infelizmente, continua sendo a única inspiração possível. E isso dói. Muito.

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