Na última noite pude sonhar com meu pai. No outro dia percebi que nunca havia sonhado com ele. Aquela era a primeira vez. Foi algo bom. No sonho, nós conversávamos sobre vários assuntos, inclusive acerca de sua juventude. Em vários momentos ele parava, acendia um cigarro, olhava pra um céu escuro, nublado, pensava alguma coisa e só então soltava a fumaça. Ele falou que com 24 anos comprou uma arma 38, duas balas e a deixava enterrada no quintal de meu avô. Disse que se um dia se cansasse da vida, a solução estava ali. E cansou. A vida, segundo ele, foi uma exaustão do início ao fim, mas que nunca teve coragem de usar o revólver. Que toda vez que ia desenterrar a arma, nascia uma pontinha de esperança, que talvez as coisas melhorassem. Porém, não melhorou. O coração endureceu e o ódio pela maioria das pessoas que tentavam 'derrubá-lo' fez com que se mantivesse de pé. Muita idiotice da sua parte, eu disse. Então ele pegou novamente o cigarro, puxou a fumaça, olhou pro céu escuro e nublado, e soltou. Muita idiotice?, me perguntou. Bastante, respondi. Então faça melhor, ele falou. Eu faço. Eu escrevo. Sempre que escrevo mato algo dentro de mim, até a felicidade quando está em excesso, vou lá e a devoro, porque acredito que a mente deve lembrar-se sempre da imundície que nós, seres humanos, viramos. Respondi e saí. Decidi me afastar pra também acender um cigarro. Comecei a pensar como fui parar naquele lugar, pois eu não gostava de estar perto dele. Foi aí que começou a melhor parte do sonho. Em algum momento havia choro. Olhei pra trás e era ele chorando enquanto olhava pras próprias mãos. Senti uma ponta de remorso no meu coração e fui pra mais perto. Joguei o restante do cigarro fora. Puxei a cadeira. Havia sangue nas mãos. Comecei a desconfiar que ele houvesse tentado suicídio naquele momento. Os olhos estavam vermelhos. O choro era compulsivo. Peguei algumas ataduras e estanquei o sangue. O corte não era profundo. Aos poucos a calma foi voltando. Tenho mania de carregar sempre comigo cópias de textos feitos por mim. Peguei um muito antigo, de um amor nunca correspondido e comecei a ler. Não havia mais remorso, ódio, suicídio, depressão. Só sentia e ouvia minha voz entoando versos que um dia me fizeram chorar. Versos que um dia foi meu escape pra eu matar a insônia e monstro suicida que eu cultivava toda noite. Cada palavra que saía era como gotas de ansiolítico. No fim, estávamos salvos pela poesia. No fim, a poesia foi meu revólver enterrado no meu peito, e toda vez que tudo dava errado ou tudo dava certo era a poesia que me refazia aos poucos.
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