Você não sabe, mas enquanto você arrumava suas unhas eu te observei com
um cuidado de mãe. Enquanto você ficava perdida em seus dedos, eu pude sentir
uma tristeza misturada com saudade invadindo meu peito. Ali, alguma coisa
estava me avisando que você iria embora. Sempre acreditei em superstições.
Então eu disse 'meu bem, tu vai embora, sabia?'. Você, sem tirar os olhos do
que estava fazendo, respondeu 'amor, não começa com tuas bobagens' Nesse
momento, o telefone toca. Você para o que está fazendo e atende. A pessoa do
outro lado começa a te deixar tensa. Algo ruim aconteceu, penso. E acontece.
Você me pergunta onde estão os cigarros. Eu começo a ter a certeza absoluta que
algo ruim aconteceu, pois você acredita veemente que há um poder no cigarro de afastar
coisas ruins, ‘menos o câncer’, eu falo indo pegá-los. Então você começa a
dizer que sua mãe retornou com as crises epilépticas. Que talvez tenha que
voltar a morar com ela novamente. Uma lágrima escorre no teu rosto enquanto eu
te dou um abraço cheio de ternura. Começo a ter certeza que a saudade virou
minha companheira fiel. Primeiro foi com o falecimento da minha mãe, depois
alguns amores e agora você. Pra piorar, o céu estava nublado e a noite era
muito fria. Raciocino o quanto será difícil desacostumar sem teu cheiro e sem
tuas calcinhas estendidas no quintal. Será triste entrar na padaria que eu
comprava teu bolo de queijo e não poder comprar mais. Acordar e não te ter ali
pra dar um beijo no rosto vai ser esquisito. E saber que eu não vou mais sentir
o gosto da sua boceta no meu céu da boca num domingo melancólico é angustiante.
Por isso, desde esse dia, todos os dias à noite eu acendo um cigarro e fico
ali, no aguardo, no silêncio, esperando que ele queime junto com tudo de ruim
que vem se acumulando, principalmente a saudade.
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