quinta-feira, 13 de julho de 2017

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Minha avó sofreu de mal de alzheimer durante dez anos. Minha mãe cuidou dela todo esse tempo. Aos poucos, ela esqueceu os nomes dos filhos, a panela no fogo, de comer com as próprias mãos, de escrever, falar, andar, as decepções etc. Em março de dois mil e quinze veio a falecer. Ela gostava de Raul seixas. Dizia que o ouvia pra lembrar-se de um grande amor que ficou na Paraíba, mas que o pai dela não deixou que namorassem por conta dele ser negro. Então ela veio pro maranhão, casou com meu avô e tiveram vários filhos. Era professora, opiniosa e não havia homem no mundo que a mandasse calar a boca. Não era submissa. Sabia viver e fumar. Preferia o vinho. Manjava das estações da lua. Assumia quando não gostava de alguém. O alzheimer veio e aos poucos foi tirando essa força. Dia após dia as coisas iam tomando outro rumo. A fita de Raul não tocava mais. O ex amor da Paraíba foi morrendo aos poucos. Permaneceu seus últimos dias como um bebê gigante. Talvez nem ela soubesse o que estava acontecendo. E a vida é isso, passamos parte dela nos embebedando e fumando pra esquecer algo ou alguém, então, do nada, uma doença qualquer vem e leva tudo. Às vezes, bem raro, tenho a plena convicção vou sofrer disso também.

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