Minha avó sofreu de mal de alzheimer durante dez anos. Minha mãe cuidou
dela todo esse tempo. Aos poucos, ela esqueceu os nomes dos filhos, a panela no
fogo, de comer com as próprias mãos, de escrever, falar, andar, as decepções
etc. Em março de dois mil e quinze veio a falecer. Ela gostava de Raul seixas.
Dizia que o ouvia pra lembrar-se de um grande amor que ficou na Paraíba, mas
que o pai dela não deixou que namorassem por conta dele ser negro. Então ela
veio pro maranhão, casou com meu avô e tiveram vários filhos. Era professora,
opiniosa e não havia homem no mundo que a mandasse calar a boca. Não era
submissa. Sabia viver e fumar. Preferia o vinho. Manjava das estações da lua.
Assumia quando não gostava de alguém. O alzheimer veio e aos poucos foi tirando
essa força. Dia após dia as coisas iam tomando outro rumo. A fita de Raul não
tocava mais. O ex amor da Paraíba foi morrendo aos poucos. Permaneceu seus
últimos dias como um bebê gigante. Talvez nem ela soubesse o que estava
acontecendo. E a vida é isso, passamos parte dela nos embebedando e fumando pra
esquecer algo ou alguém, então, do nada, uma doença qualquer vem e leva tudo.
Às vezes, bem raro, tenho a plena convicção vou sofrer disso também.
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