Desde o dia que roubaram minha bicicleta tenho andado cabisbaixo. Tenho
pensado mais no mundo e nesse sistema que vivemos. Quando comento do roubo a
maioria diz 'ah, é só uma bici, já já tu compra uma moto' Eles acham que é um
transporte de pobre, que logo em seguida terei uma moto. Mas não. Nunca sonhei
com uma moto ou um carro. A bicicleta é o transporte que nunca deveria ter
caído de moda. O mundo deveria ter evoluído menos. Está tudo muito à frente. As
crianças recebem mil informações e viram adultos fracassados, como nós. E
sofrem, muito. Crescem achando que se não passarem pra medicina numa federal e
estarem estabilizadas até os trinta anos são derrotadas. Eu, por exemplo,
cresci assim. Hoje, com vinte e quatro, sem bicicleta, sem moto, sem carro, sem
diploma e recém carteira assinada, me entristeço. Às vezes, quase sempre, fico
frustrada por não estar como o mundo queria. Porém, o que me consola é saber
que a humanidade falhou. Deus falhou. O sistema deu errado. Ninguém sabe o que
fazer. Ou cada um acha seu escape, ou cada um pega sua carabina e solta um tiro
nos miolos. Por isso, enquanto o mundo se fode, eu escrevo. Enquanto trocam
minha bicicleta por algumas pedras de crack, eu escrevo. Tento ficar de pé. A
literatura tem me deixado tranquila. Escrever sobre minhas decepções tem sido
como ganhar um abraço da minha mãe falecida há cinco anos.
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