sexta-feira, 25 de agosto de 2017

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Quando a morte vier quero ter bebido dezesseis cervejas na noite anterior. Quero vê-la descer do ônibus, caminhar em direção a minha casa, passar pela sala e me encontrar no quarto. Estarei sozinha e com muita ressaca. Ela terá pena de mim. Dirá que chegou minha hora e que eu descansarei finalmente. Com a cabeça doendo e com ânsia de vômito implorarei a ela pra que se esquecer de mim. Que eu estava bem e que não quero ir minha viagem agora. Ela soltará uma bela gargalhada. Eu irei chorar como alguém com câncer no reto em estado avançado. Então ela irá sentar na minha cama e ler meu último poema. Nele eu estarei falando da única mulher que me apaixonei. De como consegui sobreviver a esse amor. De como foi bonito e triste as vezes que eu me pegava escrevendo nos papéis poemas melancólicos sobre meu dia e de como eu me controlava pra não ir aos correios e mandar pra que ela lesse e soubesse como eu estava. Será vergonhoso e grandioso. A morte então irá dizer "todo mundo que é metido a poeta nesse mundo morre de forma medíocre, pobre e falando dos amores antigos." Com certeza nessa hora irei sorrir. Irei sorrir alto. Darei longas gargalhadas. E quando me darei por si, meu espírito já terá saído do meu corpo. Irei morrer sorrindo da morte e lembrando-se da única mulher pela qual me apaixonei.

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