quarta-feira, 6 de setembro de 2017

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Queria ter te protegido quando você caiu da escada e no escuro clamou por uma ajuda, mas não havia ninguém em casa. Teu marido ranzinza assistia tevê no quarto. Tua filha que não entendia tuas dores jogava no quarto. Você estava bêbada e sentia medo deles ouvirem teu choro misturado com cheiro de cachaça e suor que escorria pela testa. O alcoolismo tornou-se teu companheiro fiel desde o dia que teu marido decidiu arrumar outra. A doença roeu aos poucos tudo que existia de bonito no teu corpo. Em três anos você perdeu vinte quilos. Você era professora de português num colégio que hoje não existe mais. Você tinha a letra mais bonita da cidade. Contigo eu aprendi a ler e esbocei meus primeiros poemas. Contigo eu me sentia mais corajosa pra enfrentar os olhares estranhos das pessoas que me deixavam incapaz de pisar na rua por vergonha. Ontem fez seis anos que você faleceu. Enchi o cu de cerveja e quando cheguei em casa resolvi acender algumas velas em teu nome. Balbuciei alguma dessas orações que aprendemos na infância e quase no fim pude sentir teu espírito se aproximar e me dar um beijo na testa, como quem diz “deixe meu espírito em paz, Carol. A morte está sendo meu melhor porre.”

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