Queria ter te protegido quando você caiu da escada e no escuro clamou
por uma ajuda, mas não havia ninguém em casa. Teu marido ranzinza assistia tevê
no quarto. Tua filha que não entendia tuas dores jogava no quarto. Você estava
bêbada e sentia medo deles ouvirem teu choro misturado com cheiro de cachaça e
suor que escorria pela testa. O alcoolismo tornou-se teu companheiro fiel desde
o dia que teu marido decidiu arrumar outra. A doença roeu aos poucos tudo que
existia de bonito no teu corpo. Em três anos você perdeu vinte quilos. Você era
professora de português num colégio que hoje não existe mais. Você tinha a
letra mais bonita da cidade. Contigo eu aprendi a ler e esbocei meus primeiros
poemas. Contigo eu me sentia mais corajosa pra enfrentar os olhares estranhos
das pessoas que me deixavam incapaz de pisar na rua por vergonha. Ontem fez
seis anos que você faleceu. Enchi o cu de cerveja e quando cheguei em casa
resolvi acender algumas velas em teu nome. Balbuciei alguma dessas orações que
aprendemos na infância e quase no fim pude sentir teu espírito se aproximar e
me dar um beijo na testa, como quem diz “deixe meu espírito em paz, Carol. A morte
está sendo meu melhor porre.”
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