quinta-feira, 21 de setembro de 2017

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Trabalhei num hospital por um tempo. Eu ficava no setor da oncologia. Tinha dias que o ambiente era pesado. Pessoas choravam pelos corredores com o resultado da biopsia em mãos. Os médicos eram duros em suas respostas. Já estavam vacinados a qualquer tipo de angústia vinda por parte dos pacientes. Às vezes eu chegava em casa e lembrava do rosto das pessoas descobrindo o câncer. Era como se elas estivessem sentindo a morte dando uns tapinhas nas costas perguntando "vamos lá?" Alguns chegavam debilitados e sem esperança. Uns se apegavam a jesus e diziam que ele ira curá-lo. Outros falavam da força dos orixás. E tinha aqueles que mantinham sua fé quieta, preferiam silenciar-se. E era aí onde resplandecia a pureza que perdemos no decorrer dos problemas. Surgiam aqueles questionamentos que só aparecem quando temos um contato nítido com o tamanho da nossa fragilidade, dúvidas como "pra que tanta razão?" os deixavam com os pulmões apertados, naquele ambiente minúsculo lotado de pessoas na mesma situação. Trabalhei durante três meses. Hoje senti saudade de cada um deles. Às vezes dois ou três me liga no mês dizendo que sente minha falta, e pergunta se eu viajei ou se pedi conta.  E, sim, eu pedi conta. Mesmo todos os dias ter recebido abraços sinceros e bons dias cheio de sorriso, me fazendo pensar que a vida às vezes pode ser muito bonita.

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