Trabalhei num hospital por um tempo. Eu ficava no setor da oncologia.
Tinha dias que o ambiente era pesado. Pessoas choravam pelos corredores com o
resultado da biopsia em mãos. Os médicos eram duros em suas respostas. Já
estavam vacinados a qualquer tipo de angústia vinda por parte dos pacientes. Às
vezes eu chegava em casa e lembrava do rosto das pessoas descobrindo o câncer.
Era como se elas estivessem sentindo a morte dando uns tapinhas nas costas
perguntando "vamos lá?" Alguns chegavam debilitados e sem esperança. Uns
se apegavam a jesus e diziam que ele ira curá-lo. Outros falavam da força dos
orixás. E tinha aqueles que mantinham sua fé quieta, preferiam silenciar-se. E
era aí onde resplandecia a pureza que perdemos no decorrer dos problemas.
Surgiam aqueles questionamentos que só aparecem quando temos um contato nítido
com o tamanho da nossa fragilidade, dúvidas como "pra que tanta
razão?" os deixavam com os pulmões apertados, naquele ambiente minúsculo
lotado de pessoas na mesma situação. Trabalhei durante três meses. Hoje senti
saudade de cada um deles. Às vezes dois ou três me liga no mês dizendo que
sente minha falta, e pergunta se eu viajei ou se pedi conta. E, sim, eu pedi conta. Mesmo todos os dias ter
recebido abraços sinceros e bons dias cheio de sorriso, me fazendo pensar que a
vida às vezes pode ser muito bonita.
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