Esperar o ônibus é o momento do dia que mais me lembro de você. Às vezes
encosto-me aos alpendres e te vejo caminhando em minha direção cabisbaixa,
evitando olhar pro rosto das pessoas. Você sempre agia dessa forma enquanto
caminhava pelas ruas, principalmente durante o dia. À noite, era quando você
mais se sentia a vontade em relação a você mesma e com o mundo. De vez em
quando eu recebia uma ligação tua me perguntando se tinha dinheiro pra cerveja,
eu dizia sim, mesmo não tendo. Então você calçava teus chinelos e vinha. Eu era
feliz durante o tempo que ficávamos em silêncio, olhando pros lados e deixando
a cerveja esquentar. Nossas conversas desnecessárias nos faziam mais perto,
porque sentíamos que não havia nenhuma obrigação de mostrar algo cativante uma
pra outra. Nunca transamos. Nunca te fiz um cafuné durante o meio da noite.
Acabávamos a cerveja e seguíamos nosso caminho. E quando eu ficava triste por
semanas eu pensava em te ligar ou te mandar mensagem, só pra poder ver de novo
teu jeito singelo de lidar com a vida, como você tomava o último gole e os
desenhos que você carrega no corpo. Esperar o ônibus foi a forma mais bonita
que achei de te manter perto, apesar de saber que nesse exato momento você
esteja sendo feliz em silencio com outra pessoa enquanto a cerveja esquenta.
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