Quando me lembro da minha infância e da minha adolescência não sinto
nenhuma saudade. Fui uma adolescente cheia de distúrbios que ninguém entendia,
muitos menos eu. Na escola, sempre fui aquela que tirava notas baixas e com
poucos amigos. A única matéria que eu tinha um desempenho acima da média e
certa dedicação era redação. Os recreios sempre foram em sala de aula. Todos
desciam, menos eu. Em casa me lembro que só transitava pelos cômodos quando meu
pai não estava. Detestava topar com ele, sentia náuseas. Por isso
frequentemente ficava no quarto assistindo qualquer coisa na globo. Nessa
época, começou minha compulsão pelo suicídio. Antes, ainda criança, já havia
cogitado a possibilidade. Era natural eu acordar no meio da noite e sair
procurando o revólver 38 do meu pai. Lembro que pela manhã o enxergava pela
fresta da porta segurando a arma e a escondendo em algum lugar que eu nunca
descobri. Os anos passaram-se. Mudei de casa e de família. Mas hoje quando eu
fui almoçar na casa do velho, eu vi aquela criança completamente atordoada de
anos atrás trancafiada no quarto que um dia foi meu. Ela agonizava sozinha
olhando prum vazio inacessível. Me aproximei lentamente e a envolvi entre meus
braços dizendo "continue escrevendo, um dia a literatura vai sarar tudo isso."
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