quarta-feira, 11 de outubro de 2017

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Quando me lembro da minha infância e da minha adolescência não sinto nenhuma saudade. Fui uma adolescente cheia de distúrbios que ninguém entendia, muitos menos eu. Na escola, sempre fui aquela que tirava notas baixas e com poucos amigos. A única matéria que eu tinha um desempenho acima da média e certa dedicação era redação. Os recreios sempre foram em sala de aula. Todos desciam, menos eu. Em casa me lembro que só transitava pelos cômodos quando meu pai não estava. Detestava topar com ele, sentia náuseas. Por isso frequentemente ficava no quarto assistindo qualquer coisa na globo. Nessa época, começou minha compulsão pelo suicídio. Antes, ainda criança, já havia cogitado a possibilidade. Era natural eu acordar no meio da noite e sair procurando o revólver 38 do meu pai. Lembro que pela manhã o enxergava pela fresta da porta segurando a arma e a escondendo em algum lugar que eu nunca descobri. Os anos passaram-se. Mudei de casa e de família. Mas hoje quando eu fui almoçar na casa do velho, eu vi aquela criança completamente atordoada de anos atrás trancafiada no quarto que um dia foi meu. Ela agonizava sozinha olhando prum vazio inacessível. Me aproximei lentamente e a envolvi entre meus braços dizendo "continue escrevendo, um dia a literatura vai sarar tudo isso."

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