Todas as vezes que chegava do colégio eu ia procurar minha mãe em algum cômodo da casa. Isso porque eu queria olhar pro rosto dela e constar se havia bebido ou não. Na maior parte da semana lá estava ela, no quarto, prostrada. Eu não fazia muita coisa. Almoçava e então ia ler o resto da tarde. Às vezes fingia estudar e ficava contando quantas vezes ela saía e voltava. Eram infinitas. No fim, eu sempre tinha que ir ajudá-la a tomar banho, passar um perfume pra amenizar o cheiro de álcool e esperar meu pai como se nada tivesse acontecido. Mas nem sempre foi assim. Tinha dia, mesmo que raro, em que a casa tomava outra atmosfera. Nesses dias o céu ficava mais azul, a comida tinha cheiro, alguns livros ficavam sobre a mesa, mamãe voltava a ter ânimo, e era possível perceber seus lábios mais rosados e seus olhos de alguma forma ficavam esverdeados. Ela nunca pode perceber essas mudanças. Eu sentia que era a única da casa a notar que sua pele ficava mais bonita ou que as plantas haviam sido molhadas no decorrer da manhã. Hoje, mamãe está morta. O alcoolismo a matou de forma atroz. Lembro disso todas as manhãs onde a ressaca me impossibilita de pensar qualquer coisa que não for naqueles olhos esverdeados que me faziam crer numa possível cura que nunca aconteceu.
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