segunda-feira, 19 de março de 2018

133

A ambulância não havia chegado. Uma mulher padecia em cima da massa cefálica que escorria da cabeça do homem. Ele pesava uns 120 quilos e não era tão alto. Provavelmente levou um único tiro fatal de uma calibre 12 de cano cortado. Tentei demonstrar algum afeto cedendo meu único cigarro, mas não havia muita coisa a ser feita. O lugar começou a encher de pessoas. Acendi o cigarro e me afastei. De longe, percebi que não foi o desespero da possível esposa nem o cérebro do homem que sujava o asfalto que me sensibilizou. O que me comoveu foram os olhos entreabertos do recém defunto que pareciam estar fixados em minha direção. Aqueles olhos, que horas antes resplendiam nossos interesses fúteis, agora, sem brilho, poderiam dizer muito mais do que qualquer pessoa com cem anos de vida.

Nenhum comentário:

Postar um comentário