Ela deu partida no carro e seguimos sentido Belém. Seria no mínimo dez horas de viagem num gol anos 90, que ela herdou do pai. Foi a única coisa decente que aquele velho filho da puta deixou. Fora isso, ele ficou devendo cento e vinte reais na mão de um agiota. Torrava tudo em jogos. Morreu de um ataque fulminante enquanto comia uma prostituta com o dinheiro que havia ganhado numa dessas apostas. Tivemos que vender alguns dos meus livros pra pagar a conta. Vendemos também uma cômoda e um colchão. Era setembro de 2002, e o Brasil estava tão fudido quanto hoje, mas, havia uma esperança. A seleção tinha levado o penta, e também era ano de eleição pra presidente. As pessoas andavam nas ruas felizes com a quinta estrela bordada no lado esquerdo do peito. Os políticos berravam suas promessas. Todo mundo meio que andava otimista pelas ruas. Fizemos a maior parte da viagem em silêncio. Às vezes parávamos num posto pra dar uma mijada e abastecer. Ela ainda tentava ingerir o luto do seu pai. Preferi o sossego. Estávamos indo embora sem levar muita coisa. Havia apenas alguns livros, o nosso gato, alguns lençóis e biscoito. Já completava umas três horas de viagem quando ela me surpreendeu perguntando 'o que aconteceria se eu simplesmente jogasse o carro pra esquerda?', eu sorri e disse 'nosso gato. nosso nobre e irresistível gato morreria. é isso que tu quer?'. Ela sorriu de volta. Um sorriso abafado e amargo. Acendi um cigarro e pedi que parássemos no próximo posto. Ela cedeu. Ficamos lá a noite inteira. Houve uma hora que transamos. Que demos alimento ao nosso gato. Que comemos os biscoitos com suco. Que falamos sobre Belém. Que seria agradável morar naquela cidade infestada por urubu, onde ninguém nos conhecia. A calmaria era interrompida pelo barulho dos caminhões que rasgavam a rodovia bernardo sayão. Conferi se as portas do carro estavam devidamente trancadas e se ainda tinha comida pras próximas horas. Ela então encostou a cabeça sob meu peito e dormiu. Tentei fazer o mesmo, mas algo em mim arquejava. Eu sabia, no fundo, que Belém iria nos engolir assim como os urubus agem diante de uma carnificina.
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