segunda-feira, 19 de março de 2018

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Quando eu tinha doze anos presenciei o fim de um relacionamento enquanto esperava pelo meu ônibus. Os dois estavam visivelmente bêbados e discutiam na frente de todos. A discussão estava em seu ritmo 'normal' até o momento em que ela disse Lavei minha alma quando te traí com o Breno no último natal, seu imbecil. Nesse instante, a sensação era que o mundo havia ficado em câmera lenta. O cara, nitidamente espantado, se afastou e sentou-se na borda da avenida com a mão esquerda na cabeça ao mesmo tempo em que a direita palpava o bolso procurando um cigarro. Nessas horas não há muita coisa pra se dizer, e o cigarro talvez seja teu único porto. As lágrimas de um recém corno escorriam em seu rosto seco e manchado de espinhas. Talvez o ser humano nunca esteja realmente preparado pra esses momentos onde o amor arruína e coisas mínimas como tomar um banho e descansar deixam de fazer sentido. Ela então atravessou cautelosamente a avenida sem olhar pra trás, sem remorso e sem titubear. Deu com a mão pro primeiro ônibus que passava, pagou a passagem, ajeitou os cabelos e foi. Do outro lado, ele continuava com uma das mãos na cabeça e a outra segurando o cigarro. Tudo agora estava em silêncio. As crianças. O movimento da avenida. Os pássaros. Era a minha primeira vez presenciando o único final plausível que existe quando duas pessoas se amam e que ninguém nos conta quando somos jovens.

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