No final dos anos 90 eu vi Vicente, meu vizinho, desaparecer na cabine de um caminhão antigo. Na época ele tinha dezessete anos. Sua família não fazia muita questão de mantê-lo perto. Vicente era porra louca. Quando tinha quinze anos foi pego comendo um velho no quintal de sua avó. Os dois estavam chapados de álcool e maconha. Desde muito novo já era fissurado em comer cu de velhos. De vez em quando ele vinha me contar. Fumávamos maconha no breu das ruas. Aos poucos fomos virando melhores amigos. Eu nunca tinha muita novidade. Talvez a coisa que mais chocou Vicente foi quando eu disse que era lésbica. Lembro dos seus olhos cheios de compaixão. Lembro também que ele me deu abraço e disse que ninguém me faria algum mal por isso. Foi o primeiro abraço afável que havia ganhado na vida. Naquele tempo eu não tinha ninguém pra conversar. Minha mãe estava bêbada a maior parte do tempo. Sem falar do seu catolicismo desvairado. Chapamos juntos até o momento que chegou um senhor rico em nossa mesa. Ele chamou Vicente pro outro lado da rua. Disse que tinha uma fazenda no interior do Pará e que estava precisando de homens jovens. E prometeu muita grana. Sem titubear o infeliz aceitou. Havia uma inocência em seus olhos apesar de toda aquela fissura por cu e álcool. O velho então pagou algumas rodadas de cerveja pra gente. Na manhã seguinte eu lembro o momento que ele subiu na cabine e gritou dizendo que voltaria antes do final de outubro de 98 pra comer o cu de um velho chamado Messias, o seu preferido. Desde então eu nunca mais soube notícias de nenhum dos dois. E antes do falecimento de seu Messias, ano passado, era possível ver o velho acendendo velas nos fins de tarde e sussurrando o nome de Vicente.
Nenhum comentário:
Postar um comentário