Você tinha uma viagem marcada pra semana seguinte. Te ligaram de São Paulo dizendo que seu pai estava num asilo com indícios de Alzheimer e que comia merda todas as manhãs antes do café. Desde esse instante, prometemos que íamos encher o cu de álcool até que pudéssemos esquecer nossos momentos de sorte. Num desses porres, paramos sob a lâmpada um poste. A iluminação era fraquíssima. Sentamos e ficamos por um longo período apenas ouvindo os cantos de alguns pássaros. O perigo da cidade já não nos amedrontava. Era quinta feira e em duas horas você tinha que estar na rodoviária. A semana havia passado rápido junto com toda nossa grana. Seu pai, quase morto, te esperava apesar de tudo. Você o odiava, pois ele havia largado sua mãe com mais seis filhos dizendo que ia comprar um café. Nunca mais voltou. Você era a mais nova e a única que ele foi capaz de se recordar do nome. O sol começava a sair quando dei com a mão prum ônibus sentido rodoviária. Você entrou. Esperei por alguns instantes até que o ônibus fosse ofuscado pelo claridade do sol que saía. Provavelmente aquela quinta feira teria um céu azul e de poucas nuvens, assim como a maioria dos dias tristes. Levantei. Joguei a chave de nossa casa fora. Nunca mais voltei lá. Não sei o que fizeram com a frigideira que ficou no fogão cheia de salsinha. Você amava salsicha. Nem com nosso rádio e a nossa cama que sua tia havia nos dado de presente no natal de dois mil e quinze. Comecei a andar na direção contrária da sua. Minha avó dizia que quando fazemos isso, o destino nos devolve o que foi engolido pela luz. Naquele dia, eu me lembrei dessa frase quando você sumiu na luminosidade do sol. E quem sabe essa seja a única profecia que um dia se cumpra.
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