Deu a hora e fui pra varanda como de costume. Estava de noite. Alguns moleques jogavam na rua. De lá era possível observar a cidade melhor. Acendi um cigarro. Entre um trago e outro você veio e ficou também olhando em silêncio pra aquela penca de prédios e casas empilhadas. Muitas luzes. Iniciei a conversa dizendo qualquer coisa aleatória. Puxei mais alguns tragos e depois acendi outro cigarro. O rio de janeiro estava cada vez pior. Não havia por do sol bonito. As pessoas andavam entristecidas nas favelas. As mulheres entravam cabisbaixas no metrô. Os jovens haviam desistido. Velhos com oitenta anos se suicidavam. Ninguém sabia muito bem o que fazer. Você falou que o rio de janeiro virou uma espécie de alpendre que tem como bônus algumas paisagens bonitas pra seres viajantes como eu. Mas que morar ali é como descobrir um medo incurável que te impossibilita de existir, e que em algum momento uma bala vai se alojar bem no meio do seu peito. "então você morre. há um funeral de um dia e meio na casa dos seus pais. alguém chega com algumas flores e chora. fecham o caixão. te levam até o cemitério. descem as cordas. alguém joga um punhado de terra dizendo adeus temendo ser o próximo. por último, o coveiro finalmente inicia seu trabalho deixando você completamente coberto de terra e esquecido." você me disse isso enquanto lá embaixo a mãe de um dos moleques berrava. Dou a última tragada. Um carro de polícia passa na hora. Então te observo desaparecer nesse desânimo profundo que nem aquele mar de luz que nos rodeava foi capaz de esconder.
Nenhum comentário:
Postar um comentário