Nosso carro chocou-se contra um caminhão de mudanças enquanto cortávamos a rodovia belém-brasília totalmente chapadas. Você estava feliz, por isso não percebeu como meus olhos marejavam quando fiz uma prece. Não me recordo da oração, mas terminei-a sussurrando teu nome, como se soubesse que dessa vez partiríamos pra sempre. No caminhão, um casal. Ela chorava compulsivamente segurando um lenço laranja. Ele, muito calmo, observava os matos pelo retrovisor. Atrás, na carroceria, tudo balançava. Você dirigia e falava coisas que eu não conseguia prestar atenção. No rádio, uma canção latina que dizia Usted es la culpable de todas mis angustias y todos mis quebrantos. Nesse instante, meus olhos se entrecruzaram com o da mulher que chorava. Então tudo se apagou. Nosso carro colidiu com o caminhão e capotou oito vezes. O casal sumia na poeira junto com o motorista e os móveis, que caíam um por um no asfalto. Ninguém nunca soube da prece, do lenço laranja, da canção, dos olhos tristes da mulher, nem do teu riso estridente minutos antes. Tudo virou cinza e silêncio.
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