segunda-feira, 23 de julho de 2018

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Em 99, com seis anos, me lembro que minha vizinha escutava todos os dias as músicas de Luis Miguel. Era a parte mais bonita da minha tarde. Eu saía pro quintal todos os dias no mesmo horário. Me aproximava do muro e ficava escondida entre os pés de acerola. Não queria que alguém me visse. Sentia vergonha, embora não entendesse porra nenhuma do que estava sendo tocado. Talvez fosse o ritmo ou a voz dela que me atava. Mas existia algo de sedutor, que ainda hoje não assimilo. Ela morava sozinha. O marido havia se apaixonado por uma mulher mais jovem numa de suas viagens a São Luís. Trabalhava transportando combustível pruma distribuidora. Às vezes ficava de vinte dias sem voltar pra casa. Recordo da exata manhã em que ele ligou pra dizer isto. Tinha um orelhão na esquina onde todo mundo do bairro usava. Nesse dia ele telefonou e mandou chamá-la. Eu estava na calçada quando escutei o choro contido e penoso. Dois homens a pegaram pelo colo e a levaram pro quarto enquanto minha mãe se dispôs a fazer um chá e pensar no que diria de consolo pra quando a vizinha voltasse pro estado equilibrado. Com seis anos a gente não tem muita noção das angústias do outro. Segui brincando normalmente. De tarde, fui pro muro como o de costume mas nada aconteceu. No outro dia a mesma coisa. Na semana seguinte também. Nem música nem conversas nem choro. Uma paz deprimente que me aborrecia. Voltei a vê-la algumas vezes na feira. As suas olheiras estavam mais fundas e escuras. Parecia ter enlouquecido. Se passaram dezoito anos. Agora tenho quase vinte e cinco, e esse silêncio de 99 ainda perdura nas minhas tardes como um bolero melancólico sem fim

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