Segui dobrando as ruas no escuro. A energia havia faltado trinta minutos antes de eu sair de casa. Chovia. No bolso, dez reais. A única luz que clareava, saía de uma lanterna pequena. Eu não sabia muito bem o que iria fazer. Mas me sentia bem por estar ali. Poderia vagar daquela forma por uma noite inteira. Era uma cidade desconhecida pra mim. Não havia resquícios de família. Por algumas horas, tudo estava sob meu controle. Continuei andando. Nos botecos, o reggae. Homens faziam suas juras-quase-eternas pras negras lindíssimas que dançavam. No centro, os fogos e muita música. Tinha festa por toda parte e as ruas estavam cheias de gringos. Cortei a cidade em silêncio, como sempre fiz. Quando cheguei ao porto, um pescador dormia bêbado segurando um rádio que chiava. Tirei a roupa e entrei no mar. Tudo estava calmo. Fui afundando aos poucos. Caminhei mais alguns metros. Os foguetes brilhavam os telhados das casas antigas. O cortejo tocava uma música que eu nunca antes tinha ouvido. E o mar me tragava de forma mansa. Quis voltar, mas meus pés não alcançavam o chão. As ruínas que fotografei de manhã, virou uma lembrança rasa. Olhei pra cima e não tinha mais nada no céu. Era quinta vez que eu morria naquele dia.
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