Toda noite Helena ia dormir num posto de gasolina no centro de Teresina. De vez em quando ela tinha que chupar o pau de um dos frentistas pra garantir o teto. Dormia num colchonete que fedia a decomposição humana. Passava as manhãs vagando pelas ruas, na maior parte do tempo em frente padarias. Lá sempre ocorria de alguém dar dinheiro ou pão. Aconteceu de uma noite ela se aproximar e pedir fogo. Eu tava debaixo de uma marquise bebendo água. Era uma época que havia decidido controlar meus vícios. Estava com o mesmo maço de cigarros há uma semana e tinha quinze dias que não tomava álcool. Cedi um fósforo e um cigarro. Ela acendeu e sentou. O posto ficava logo em frente. Algo me dizia que Helena tinha notado que toda noite eu estava por ali observando sua rotina, que quase sempre era a mesma coisa. Ela chegava bêbada e murmurava alguma música evangélica ao mesmo tempo em que eles discutiam quem seria o da vez. Em seguida o ganhador da aposta a levava prum lugar mais escuro e baixava a calça até o joelho. Só depois de fazer isso que Helena poderia pegar seu colchonete fedido, fazer sua prece (era possível vê-la segurando a imagem de uma santa enquanto mantinha os olhos fechados e movia os lábios de forma suave) pra finalmente dormir. Seus olhos eram negros e tudo neles faiscava estrago e luto. De algum jeito eu tinha me apegado nela. Talvez pudéssemos sucumbir juntas em outra cidade. Mas a única coisa que ela disse sobre si antes de voltar pro posto foi seu nome. Sua voz era doce e ressoou por vários dias na minha cabeça. O sinal fechou. Ela saiu e começou a pedir alguns trocados. Seu corpo cadavérico se arrastava por entre os carros. Alguém de dentro de um Siena baixou o vidro e deu-lhe dois reais. O sinal abriu. Helena desceu em direção ao posto. Os frentistas riam entre si e o pau imundo de alguns ficava duro ao passo que Helena se aproximava. No bar ao lado, um samba de Adoniran Barbosa tocava e abafava a voz doce de Helena, que de um modo confuso soava debaixo daquela marquise como um vento afável nas tardes de fevereiro.
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