terça-feira, 13 de dezembro de 2016

70

Você foi dessas putas que nas noites mais frias falam Eu te amo e na manhã seguinte vão embora deixando um rombo no peito, como um furacão. Não há morfina que amenize a dor da saudade dos nossos momentos de ternura e poesia. Nas noites mais quentes eu me lembro de como assinamos com uma bela trepada o nosso adeus. E é por isso que toda vez que o calendário marca dois de novembro eu acendo uma vela no túmulo que transávamos. É o dia que mais chove e troveja no meu peito. Éramos amantes, mas sempre que dava fazíamos amor. Lembro que sempre no fim de tudo você puxava meu rosto junto ao teu e perguntava sussurrando "lê pra mim?", e então eu pegava um daqueles meus poemas depressivos e lia. Você ficava atenta olhando fixamente pro teto, como alguém que fuma olhando pro nada e pensando em tudo. E era aí, onde residia a nossa mágica. O tal amor.

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