segunda-feira, 19 de março de 2018

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É que no silencio eu conseguia acompanhar os movimentos das tuas mãos enquanto, incansavelmente, você tentava explicar tuas experiências prematuras e tristes. Mas, num determinado ponto da conversa, você cansou e calou-se, então eu me distraí e comecei a olhar novamente pra esse vazio que me acompanha desde novembro de dois mil doze, quando minha mãe morreu a míngua num hospital dizendo que perdoava meu pai por tudo que ele foi capaz de fazer contra ela. Ficamos sozinhas na mesa. A comida esfriava junto com a cerveja. Tua mão direita, agora quieta, fazia círculos no rótulo da garrafa quase seca. O silencio pairou por longos cinco minutos. Numa tentativa inútil de salvar a noite, te convidava pra qualquer coisa pros próximos dias. Você aceitava. Balbuciei algo sobre ao natal e, por fim, levantamos e partimos. Lá fora, a lua de modo único resplandecia meu fracasso, enquanto o castanho dos teus olhos se confundia com a vastidão da Avenida Dorgival. Nesse momento, olhei pra você e jurei, em silêncio, que te dedicaria o poema capaz de sanar tuas lesões de todos esses anos.

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