domingo, 15 de outubro de 2023

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Voltar a este blog é nostálgico. Reler tudo isso num domingo à noite é nostálgico. E eu não sei exatamente o que me traz aqui novamente. Me lembro que quando fiz este blog foi para organizar os meus escritos. De lá pra cá muita água rolou. Hoje, sou quase professora. Também não sei como me adentrei nesse caminho da educação. Fui indo e indo. As coisas me ocorreram dessa forma desde sempre. Por exemplo, eu ia pra escola porque tinha que ir. Eu pegava ônibus pra ir onde a minha mãe porque tinha que ir. Não existia o porquê das coisas. As coisas estavam lá e precisavam ser cumpridas. Cumpri. Hoje, aos trinta anos, ainda me sinto com a cabeça de vinte, mas, talvez, com um pouco menos (pouco mesmo) de infelicidade. Aos dez, quinze e vinte anos eu me lembro do mundo ser terrível. As coisas tinham um constante cheiro de podre, saudade, inquietação, masturbação, abuso etc. Hoje eu ainda sinto esse cheiro, mas é um cheiro arrodeado de outras sensações. Às vezes, de esperança por algo. E talvez isso tenha surgido após eu seguir o caminho da educação. Ou talvez porque hoje, 15/10/2023, eu ame profundamente a Ligia. Enfim, eu realmente não sei. Mas quando os dias estão ruins eu me apego em alguma dessas duas escolhas e penso 'é... talvez eu esteja no caminho correto'. Nem sempre foi/é desgraças. Aos trinta a maioria do entendimento que eu deveria ter ainda é muito obscuro pra mim. No entanto, em dias como o de hoje, eu reparo nessas fagulhas que se perdem no decorrer dos dias da semana. Preciso achar alguma sensibilidade que perdi quando comecei a escrever. Preciso me apaixonar de novo pela literatura, mas não essa literatura que estudei/estudo durante quarto anos no ensino superior. Me refiro sobre a literatura sem comprometimento com a academia. Aquela literatura que não se vê na Academia de Letras, ou nas grandes vitrines, ou em bancas de TCC. Quero a literatura viva! O espanto de terminar um livro e gostar. Piva dizia que a universidade é o túmulo da poesia. Não mentiu. É exatamente o que sinto. Eu quero me apaixonar novamente pela literatura para que meus alunos se apaixonem também. Quero voltar a escrever para que meus alunos escrevam também. Talvez eu consiga resgatar essa sensibilidade pela poesia que um dia eu tive. Talvez. E se eu conseguir, talvez eu me torne uma professora inspiradora que não dita as regras gramaticais. Eu não quero ser o medo de errar. Quero manter a dureza, mas sem perder a ternura. Feliz dia dos professores.

segunda-feira, 23 de julho de 2018

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Todas as vezes que chegava do colégio eu ia procurar minha mãe em algum cômodo da casa. Isso porque eu queria olhar pro rosto dela e constar se havia bebido ou não. Na maior parte da semana lá estava ela, no quarto, prostrada. Eu não fazia muita coisa. Almoçava e então ia ler o resto da tarde. Às vezes fingia estudar e ficava contando quantas vezes ela saía e voltava. Eram infinitas. No fim, eu sempre tinha que ir ajudá-la a tomar banho, passar um perfume pra amenizar o cheiro de álcool e esperar meu pai como se nada tivesse acontecido. Mas nem sempre foi assim. Tinha dia, mesmo que raro, em que a casa tomava outra atmosfera. Nesses dias o céu ficava mais azul, a comida tinha cheiro, alguns livros ficavam sobre a mesa, mamãe voltava a ter ânimo, e era possível perceber seus lábios mais rosados e seus olhos de alguma forma ficavam esverdeados. Ela nunca pode perceber essas mudanças. Eu sentia que era a única da casa a notar que sua pele ficava mais bonita ou que as plantas haviam sido molhadas no decorrer da manhã. Hoje, mamãe está morta. O alcoolismo a matou de forma atroz. Lembro disso todas as manhãs onde a ressaca me impossibilita de pensar qualquer coisa que não for naqueles olhos esverdeados que me faziam crer numa possível cura que nunca aconteceu.

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Sonhei que uma criança síria observava um corvo em frente a minha casa. Era feriado da padroeira da cidade. Os bares estavam fechados. Os feirantes não tinham ido trabalhar. Os bêbados dividiam os últimos goles de corote. Do outro lado da cidade acontecia a procissão. Dava pra ouvir os fogos e os cantos de louvor. Acendi um cigarro e fiquei por ali. Era início de outubro e tudo ardia. A sensação térmica altíssima dava a impressão que a cidade inteira fedia a suor escorrido do cu. Não chovia há quatro meses. Puxei o primeiro trago e esperei a criança chorar clamando pelos braços da mãe. Nada acontecia. O corvo também continuava quieto enquanto os outros pássaros iam e vinham. Os dois sabiam o que um significava pro outro. Eles sabiam que o que desistisse primeiro viraria mantimento. Estavam unidos unicamente pela fome. Não havia expressão no rosto de nenhum dos dois ainda que o azul insuportável do céu continuasse. Meu cigarro já estava perto do fim. Os bêbados tentavam dormir em paz segurando as garrafas secas de corote. Abri a porta de casa e olhei novamente pra criança e pro corvo. Entrei. Lá fora, uma brisa calma surgia à medida que a porta se fechava.

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no dia que teu pai sumiu no rio tocantins
eu tinha bebido onze cervejas e dormia debaixo
de algum alpendre no centro da cidade
naquele dia o meu ônibus não passou
o meu maço de cigarro havia sumido 
e você não respondia minhas mensagens
dormi por um par de horas, acordei com o
movimento das pessoas e dos carros
você passava do outro lado da avenida dorgival
você levava um maço de cigarro na mão esquerda
você estava tão abatida que pensei em te gritar
pra dizer coisas bonitas, que a vida às vezes é isso
e falar mentiras como "teu pai está em bom lugar"
no entanto eu sentia uma das minhas piores ressacas
e não há nada pra se fazer quando se está de ressaca além de nutrir o remorso de te ver indo embora.

167

Toda noite Helena ia dormir num posto de gasolina no centro de Teresina. De vez em quando ela tinha que chupar o pau de um dos frentistas pra garantir o teto. Dormia num colchonete que fedia a decomposição humana. Passava as manhãs vagando pelas ruas, na maior parte do tempo em frente padarias. Lá sempre ocorria de alguém dar dinheiro ou pão. Aconteceu de uma noite ela se aproximar e pedir fogo. Eu tava debaixo de uma marquise bebendo água. Era uma época que havia decidido controlar meus vícios. Estava com o mesmo maço de cigarros há uma semana e tinha quinze dias que não tomava álcool. Cedi um fósforo e um cigarro. Ela acendeu e sentou. O posto ficava logo em frente. Algo me dizia que Helena tinha notado que toda noite eu estava por ali observando sua rotina, que quase sempre era a mesma coisa. Ela chegava bêbada e murmurava alguma música evangélica ao mesmo tempo em que eles discutiam quem seria o da vez. Em seguida o ganhador da aposta a levava prum lugar mais escuro e baixava a calça até o joelho. Só depois de fazer isso que Helena poderia pegar seu colchonete fedido, fazer sua prece (era possível vê-la segurando a imagem de uma santa enquanto mantinha os olhos fechados e movia os lábios de forma suave) pra finalmente dormir. Seus olhos eram negros e tudo neles faiscava estrago e luto. De algum jeito eu tinha me apegado nela. Talvez pudéssemos sucumbir juntas em outra cidade. Mas a única coisa que ela disse sobre si antes de voltar pro posto foi seu nome. Sua voz era doce e ressoou por vários dias na minha cabeça. O sinal fechou. Ela saiu e começou a pedir alguns trocados. Seu corpo cadavérico se arrastava por entre os carros. Alguém de dentro de um Siena baixou o vidro e deu-lhe dois reais. O sinal abriu. Helena desceu em direção ao posto. Os frentistas riam entre si e o pau imundo de alguns ficava duro ao passo que Helena se aproximava. No bar ao lado, um samba de Adoniran Barbosa tocava e abafava a voz doce de Helena, que de um modo confuso soava debaixo daquela marquise como um vento afável nas tardes de fevereiro.

166

Segui dobrando as ruas no escuro. A energia havia faltado trinta minutos antes de eu sair de casa. Chovia. No bolso, dez reais. A única luz que clareava, saía de uma lanterna pequena. Eu não sabia muito bem o que iria fazer. Mas me sentia bem por estar ali. Poderia vagar daquela forma por uma noite inteira. Era uma cidade desconhecida pra mim. Não havia resquícios de família. Por algumas horas, tudo estava sob meu controle. Continuei andando. Nos botecos, o reggae. Homens faziam suas juras-quase-eternas pras negras lindíssimas que dançavam. No centro, os fogos e muita música. Tinha festa por toda parte e as ruas estavam cheias de gringos. Cortei a cidade em silêncio, como sempre fiz. Quando cheguei ao porto, um pescador dormia bêbado segurando um rádio que chiava. Tirei a roupa e entrei no mar. Tudo estava calmo. Fui afundando aos poucos. Caminhei mais alguns metros. Os foguetes brilhavam os telhados das casas antigas. O cortejo tocava uma música que eu nunca antes tinha ouvido. E o mar me tragava de forma mansa. Quis voltar, mas meus pés não alcançavam o chão. As ruínas que fotografei de manhã, virou uma lembrança rasa. Olhei pra cima e não tinha mais nada no céu. Era quinta vez que eu morria naquele dia.

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Em 99, com seis anos, me lembro que minha vizinha escutava todos os dias as músicas de Luis Miguel. Era a parte mais bonita da minha tarde. Eu saía pro quintal todos os dias no mesmo horário. Me aproximava do muro e ficava escondida entre os pés de acerola. Não queria que alguém me visse. Sentia vergonha, embora não entendesse porra nenhuma do que estava sendo tocado. Talvez fosse o ritmo ou a voz dela que me atava. Mas existia algo de sedutor, que ainda hoje não assimilo. Ela morava sozinha. O marido havia se apaixonado por uma mulher mais jovem numa de suas viagens a São Luís. Trabalhava transportando combustível pruma distribuidora. Às vezes ficava de vinte dias sem voltar pra casa. Recordo da exata manhã em que ele ligou pra dizer isto. Tinha um orelhão na esquina onde todo mundo do bairro usava. Nesse dia ele telefonou e mandou chamá-la. Eu estava na calçada quando escutei o choro contido e penoso. Dois homens a pegaram pelo colo e a levaram pro quarto enquanto minha mãe se dispôs a fazer um chá e pensar no que diria de consolo pra quando a vizinha voltasse pro estado equilibrado. Com seis anos a gente não tem muita noção das angústias do outro. Segui brincando normalmente. De tarde, fui pro muro como o de costume mas nada aconteceu. No outro dia a mesma coisa. Na semana seguinte também. Nem música nem conversas nem choro. Uma paz deprimente que me aborrecia. Voltei a vê-la algumas vezes na feira. As suas olheiras estavam mais fundas e escuras. Parecia ter enlouquecido. Se passaram dezoito anos. Agora tenho quase vinte e cinco, e esse silêncio de 99 ainda perdura nas minhas tardes como um bolero melancólico sem fim